as declarações
em pouco tempo, parecia que todas as coisas que haviam para serem ditas, haviam sido ditas. em pouco tempo, todos os tipos de abraços haviam sido testados, todos os úmidos beijos haviam sido dados, todas as palavras haviam sido escritas. embora o abraço ainda se encaixasse da mesma forma, os braços dele sobre a sua cintura, o peito encostado e sendo acalmado; embora o cheiro de homem exalasse do pescoço dele da mesma forma que antes e a fizesse perder todos os outros sentidos; embora ainda existisse o desejo de um mundo apenas com os dois e sem relógio e sem gente alguma e sem compromissos; embora os filmes ainda a fizessem lembrar dele; embora as músicas ainda os aproximassem nas noites vazias; embora os dois se amassem cada dia mais, cada vez mais para sempre – embora tudo fosse igual ou melhor, nada mais se dizia.
a carta
por três vezes ela havia começado outra carta. por três vezes se encheu de incertezas e perdeu o que existia para ser dito. deixou os textos de lado e foi dormir. porque ela era assim, desde antes, desde sempre: se estava insegura ou com medo ou com dores tão grandes e tão grandes que ninguém nunca poderia compreender, ela ia dormir.
o mundo
o mundo é cruel com quem se apaixona. o mundo não ajuda com dias ensolarados para passeios no parque, ou com dinheiro brotando nos bolsos dos casacos, ou com pessoas que nos desejam bom dia no café da manhã. o mundo nos traz preocupações, medo, insegurança. nos traz caras feias e palavras duras que viram manhãs feias e dias duros e noites insuportáveis. o mundo nos testa 24 horas – nos testa até nos sonhos durante a noite. e às vezes o que o mundo desconta na gente, nós descontamos em por quem nos apaixonamos.
o início da quarta carta
naquela tarde, ele disse “vai logo pra casa, chega antes das 18:30h, que a gente dá um jeito de se falar”. ele prometeu que mesmo estando no trabalho até tarde, eles conversariam. e ela foi, ela correu, e chegou 18:20h, louca pra ligar pra ser ouvida pra conversar pra matar a saudade daqueles 30 minutos no ônibus sem ele. mas ele parecia ocupado demais pra isso. e ela não pôde nem sentir raiva ou querer culpá-lo, porque sabia que não havia culpados. ele não era culpado por estar trabalhando, por não ter tempo pra conversas bobas de namorados (embora, sim, merecesse ser culpado por iludí-la de uma forma tão simples e linda e cheia de esperanças e promessas. porque ele não tinha o direito de ter tanta irresponsabilidade pra achar que vai para o trabalho a ainda assim vai conseguir dar atenção a ela. porque ela já era irresponsável demais e ele tinha que ser responsável pelos dois e ponto final). então ela percebeu que o que ele havia dito no telefonema da noite anterior era verdade: os dois estavam se distanciando.
idéias tolas
ela, criança que era, pensava que depois dos 18 anos teria mais liberdade, mais vida. ela, tola que era, lembrava que chegou a achar que o fato de ter 18 anos não a impediria de tê-lo e vê-lo o quanto quisesse. porque, afinal, os pais não teriam mais espaço em suas decisões. mas foi burrisse, foi loucura, foi, como sempre, infantilidade. porque quando se é adulto, não se é proibido de nada – mas se têm responsabilidades. quando se é adulto, não os pais mas as contas e o trabalho vêm e dizem “não, agora não. tá proibido, a diversão é pra depois”. mas, meu deus do céu, depois a gente precisa dormir e estudar e não dá tempo pro amor, não dá tempo!
quando se é adulto o mundo vem e te atrapalha nos sonhos.
apenas idéias
mas, afinal de contas, isso não pode ser tão ruim. porque há adultos que trabalham e casam e criam filhos e varrem a sala e compram televisões enormes – e são felizes. há adultos que trabalham e beijam seus parceiros ao final da noite, sem terem um ataque de saudade ou tristeza porque passaram a tarde ou a noite sem se verem. há adultos que amam e são amados e nem por isso largam todo o resto e fogem com seus amores pra uma ilha deserta. porque deve, sim, haver um jeito de conciliar essas coisas.
talvez exigindo menos do mundo…
bem, há os finais de semana. e sem o trabalho dos dois certamente os finais de semana teriam menos recursos. mas, ah, é tão mais complicado que isso. porque os finais de semana são esperados com tanta ansiedade que é inevitável que se estraguem por si só. às vezes quando o desespero ou a insegurança (como saber qual chega primeiro?) toma conta dos dois, surgem as cobranças e as lágrimas. em algumas vezes – e não, na realidade não foram poucas! – parecia que tudo entre eles ia simplesmente desaparecer: os beijos, os abraços, as risadas, as noites, as cócegas no cozinha, as massagens no sofá da sala. parecia que o mundo ficava frio e “você sabe que se eu for não volto mais” ecoava no fim da tarde e um “me larga, eu vou pra casa” era ouvido aos berros às 3 horas da manhã.
mas eles se amavam tanto. e, por favor me diz, como não morrer de amor?
mas eles se amavam tanto que eu acho que, quando brigavam, não era justo culpar um dos dois. porque eles brigavam pela simples vontade de se saberem. eles brigavam e choravam e diziam coisas que não se quer dizer quando se está calmo, porque só queriam se entender.
quando se ama, fazemos coisas estúpidas pra entender o outro. nos desesperamos e queremos a compreensão, então fazemos coisas que não devíamos e nos arrependemos mas aí já é tarde demais. é tarde porque já estragamos tudo, e tudo que já está estragado vai ficar guardado bem lá no fundo, pra voltar e virar argumentos de novas brigas ou, pior, pra virar textos idiotas em momentos inapropriados.
mas a gente só deseja – e bem do fundo do coração – entender um ao outro. porque entedê-lo significa uma possibilidade de saber o que o faz feliz, significa estar mais próximo. a realidade é que ninguém entende ninguém, e por isso entender o outro significa ser… ser o que nenhuma outra pessoa é.
e agora.
ela só quer dormir. e acordar amanhã e ligar pra ele e dizer “obrigada pelos lindos 7 meses que tivemos juntos”. e ouvir uma risada doce e sua voz de quem acabou de acordar dizer “vai dar tudo certo, amor… vai dar tudo certo.”





