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#35

Outubro 21, 2009

as declarações
em pouco tempo, parecia que todas as coisas que haviam para serem ditas, haviam sido ditas. em pouco tempo, todos os tipos de abraços haviam sido testados, todos os úmidos beijos haviam sido dados, todas as palavras haviam sido escritas. embora o abraço ainda se encaixasse da mesma forma, os braços dele sobre a sua cintura, o peito encostado e sendo acalmado; embora o cheiro de homem exalasse do pescoço dele da mesma forma que antes e a fizesse perder todos os outros sentidos; embora ainda existisse o desejo de um mundo apenas com os dois e sem relógio e sem gente alguma e sem compromissos; embora os filmes ainda a fizessem lembrar dele; embora as músicas ainda os aproximassem nas noites vazias; embora os dois se amassem cada dia mais, cada vez mais para sempre – embora tudo fosse igual ou melhor, nada mais se dizia.

a carta

por três vezes ela havia começado outra carta. por três vezes se encheu de incertezas e perdeu o que existia para ser dito. deixou os textos de lado e foi dormir. porque ela era assim, desde antes, desde sempre: se estava insegura ou com medo ou com dores tão grandes e tão grandes que ninguém nunca poderia compreender, ela ia dormir.

o mundo

o mundo é cruel com quem se apaixona. o mundo não ajuda com dias ensolarados para passeios no parque, ou com dinheiro brotando nos bolsos dos casacos, ou com pessoas que nos desejam bom dia no café da manhã. o mundo nos traz preocupações, medo, insegurança. nos traz caras feias e palavras duras que viram manhãs feias e dias duros e noites insuportáveis. o mundo nos testa 24 horas – nos testa até nos sonhos durante a noite. e às vezes o que o mundo desconta na gente, nós descontamos em por quem nos apaixonamos.

o início da quarta carta

naquela tarde, ele disse “vai logo pra casa, chega antes das 18:30h, que a gente dá um jeito de se falar”. ele prometeu que mesmo estando no trabalho até tarde, eles conversariam. e ela foi, ela correu, e chegou 18:20h, louca pra ligar pra ser ouvida pra conversar pra matar a saudade daqueles 30 minutos no ônibus sem ele. mas ele parecia ocupado demais pra isso. e ela não pôde nem sentir raiva ou querer culpá-lo, porque sabia que não havia culpados. ele não era culpado por estar trabalhando, por não ter tempo pra conversas bobas de namorados (embora, sim, merecesse ser culpado por iludí-la de uma forma tão simples e linda e cheia de esperanças e promessas. porque ele não tinha o direito de ter tanta irresponsabilidade pra achar que vai para o trabalho a ainda assim vai conseguir dar atenção a ela. porque ela já era irresponsável demais e ele tinha que ser responsável pelos dois e ponto final). então ela percebeu que o que ele havia dito no telefonema da noite anterior era verdade: os dois estavam se distanciando.

idéias tolas

ela, criança que era, pensava que depois dos 18 anos teria mais liberdade, mais vida. ela, tola que era, lembrava que chegou a achar que o fato de ter 18 anos não a impediria de tê-lo e vê-lo o quanto quisesse. porque, afinal, os pais não teriam mais espaço em suas decisões. mas foi burrisse, foi loucura, foi, como sempre, infantilidade. porque quando se é adulto, não se é proibido de nada – mas se têm responsabilidades. quando se é adulto, não os pais mas as contas e o trabalho vêm e dizem “não, agora não. tá proibido, a diversão é pra depois”. mas, meu deus do céu, depois a gente precisa dormir e estudar e não dá tempo pro amor, não dá tempo!

quando se é adulto o mundo vem e te atrapalha nos sonhos.

apenas idéias

mas, afinal de contas, isso não pode ser tão ruim. porque há adultos que trabalham e casam e criam filhos e varrem a sala e compram televisões enormes – e são felizes. há adultos que trabalham e beijam seus parceiros ao final da noite, sem terem um ataque de saudade ou tristeza porque passaram a tarde ou a noite sem se verem. há adultos que amam e são amados e nem por isso largam todo o resto e fogem com seus amores pra uma ilha deserta. porque deve, sim, haver um jeito de conciliar essas coisas.

talvez exigindo menos do mundo…

bem, há os finais de semana. e sem o trabalho dos dois certamente os finais de semana teriam menos recursos. mas, ah, é tão mais complicado que isso. porque os finais de semana são esperados com tanta ansiedade que é inevitável que se estraguem por si só. às vezes quando o desespero ou a insegurança (como saber qual chega primeiro?) toma conta dos dois, surgem as cobranças e as lágrimas. em algumas vezes – e não, na realidade não foram poucas! – parecia que tudo entre eles ia simplesmente desaparecer: os beijos, os abraços, as risadas, as noites, as cócegas no cozinha, as massagens no sofá da sala. parecia que o mundo ficava frio e “você sabe que se eu for não volto mais” ecoava no fim da tarde e um “me larga, eu vou pra casa” era ouvido aos berros às 3 horas da manhã.

mas eles se amavam tanto. e, por favor me diz, como não morrer de amor?

mas eles se amavam tanto que eu acho que, quando brigavam, não era justo culpar um dos dois. porque eles brigavam pela simples vontade de se saberem. eles brigavam e choravam e diziam coisas que não se quer dizer quando se está calmo, porque só queriam se entender.

quando se ama, fazemos coisas estúpidas pra entender o outro. nos desesperamos e queremos a compreensão, então fazemos coisas que não devíamos e nos arrependemos mas aí já é tarde demais. é tarde porque já estragamos tudo, e tudo que já está estragado vai ficar guardado bem lá no fundo, pra voltar e virar argumentos de novas brigas ou, pior, pra virar textos idiotas em momentos inapropriados.
mas a gente só deseja – e bem do fundo do coração – entender um ao outro. porque entedê-lo significa uma possibilidade de saber o que o faz feliz, significa estar mais próximo. a realidade é que ninguém entende ninguém, e por isso entender o outro significa ser… ser o que nenhuma outra pessoa é.

e agora.

ela só quer dormir. e acordar amanhã e ligar pra ele e dizer “obrigada pelos lindos 7 meses que tivemos juntos”. e ouvir uma risada doce e sua voz de quem acabou de acordar dizer “vai dar tudo certo, amor… vai dar tudo certo.”

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#34

Setembro 16, 2009

não lembro há quanto tempo assisti esse vídeo pela primeira vez. hoje pela manhã, olhando alguns emails antigos, encontrei um de 2006, cujo vídeo estava anexado. o nome do arquivo era “conselho” e eu abri por curiosidade. durante muito tempo ele rodou pela internet. ficou conhecido. ganhou uma versão brasileira. ganhou até sátiras. e depois foi esquecido. parece auto-ajuda, e eu odeio auto-ajuda. mas não posso negar que eu gostaria muito de, em certos momentos, lembrar desses tais “conselhos”.

então por isso, pra tentar não esquecer as coisas que ele diz, vou guardá-lo – e compartilhá-lo – por aqui.

como já disse alguém uma vez… a felicidade exige valentia.

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#33

Agosto 9, 2009

me diz, quem foi que decretou que não se pode viver de amor? quem foi que escreveu a lei que proíbe as pessoas de apenas viverem com as coisas boas que se têm nas relações? por que todos precisam tomar o café-da-manhã às pressas, lotar os ônibus, fechar as cortinas, passar a camisa, lavar a louça sozinhos e pagar as contas? por que a gente não pode simplesmente encontrar alguém e então viver feliz até o fim, nos alimentando do corpo e sorriso e abraço um do outro?

por que nós dois não podemos ser só nós dois? por que não podemos acordar o horário que quisermos, fazer a comida que nos der vontade, gastar as horas do dia fazendo o que nos bem entender? queria que o mínimo fosse, para nós, o suficiente. queria que uma tarde deitados no sofá, conversando ou fazendo carinho um no outro, nos bastasse para que houvesse aquela felicidade-cem-por-cento, entende?

assim como um dia apenas eu e uma garrafa de vinho na praça tiradentes fomos o suficiente pra você.

ah, se eu pudesse fazer um dia perfeito, ele seria assim: eu acordaria ao seu lado, sentiria tua respiração quente. então levantaria para preparar um café, umas torradas fresquinhas. e de repente você apareceria pelas minhas costas, me abraçaria e sussuraria “bom dia, amor!” no meu ouvido. depois comeríamos numa mesa pequena na cozinha, com copos e pratos coloridos, e conversaríamos sobre os sonhos que tivemos na noite anterior. você sempre sorrindo, lindo. então o resto do dia faríamos nada mais nada menos que… nada. eu ia ficar no sofá, branco e em formato de “L”, brincando com a sua boca como faço às vezes. você ia me fazer cócegas até eu chorar de rir e implorar para que você parasse. a gente ia ouvir algumas músicas, talvez assistir filmes. eu ia fazer algum draminha só porque você disse que aquela atriz estava muito bonita naquela cena. e você ia me abraçar e dizer “mas não mais linda que você!”. íamos enfim nos amar no chão, no quarto, na cozinha. depois, abraçados, dormiríamos tranqüilos até o fim da tarde, ouvindo os pássaros lá fora. depois eu levantaria, te faria uma bebida quente, na xícara que lhe dei de presente, e ia pro meu canto ler um livro, enquanto você lidaria com seu computador, até que eu te procurasse para que fôssemos tomar um banho juntos. enfim adormeceríamos, despreocupados com qualquer outra coisa, livres de qualquer outra pessoa, com o relógio parado. eu estaria deitada em seus braços, com um sorriso bobo no rosto por saber que conseguimos, sim, fazer um ao outro feliz. sem mais nada, apenas nós.

amor, me desculpa se às vezes esses dias não se concretizam. me desculpa se eles acabam ficando só na minha imaginação. se eu não consigo me desligar do mundo que há alheio a nós. se eu acabo estragando momentos que tinham de tudo para serem doces. é que você é tão, tão importante, é que eu te amo tanto, tanto… que as coisas acabam saindo do meu controle.

o que eu quero dizer, baby, é que eu gostaria que, às vezes, os nossos dias fossem um pouco mais tranqüilos – e que eu estou tentando ao máximo para que sejam.

Andressa Rodrigues


“E, de qualquer forma, às cegas, às tontas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer.” (Caio Fernando Abreu)

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IMPORTANTE

Julho 31, 2009

Por favor, aos que acompanham o meu blog, leiam com atenção esse post:

O WordPress, serviço que hospeda este blog, possui uma ferramenta que possibilita saber de onde os visitantes do meu blog vieram. Por exemplo, se você, visitando outro site que tem o Cartas & Cafés linkado, clicou neste link e veio parar aqui, o WordPress automaticamente me avisa que site foi esse.

Acontece que eu sempre checo esse tipo de coisa, para saber como meus visitantes acabam chegando por aqui. Numa dessas, de clicar no site que me linkou, descobri que um texto meu vem sendo publicado pela internet. O maior problema não é nem a falta da minha autorização para isso. O  problema real é que meu texto está sendo publicado como sendo de autoria de Caio Fernando Abreu.

Não sei se isso é bom ou ruim. Mas posso garantir que meu objetivo não foi e nunca será ser comparada com este grande escritor. Nunca quis que meus textos fossem divulgados, nunca quis chegar perto de ficar famosa com eles. Com certeza deve ter sido um equívoco de uma pessoa, que o publicou em outro lugar, colocando o nome do Caio F. Abreu (mesmo não entendendo como essa confusão possa ter acontecido na cabeça de alguém!) e daí em diante isso foi se propagando.

Só gostaria que todos soubessem que EU escrevi aquele texto. Me chateia ver ele espalhado por aí com o nome de outra pessoa embaixo, porque tudo que está escrito ali veio de mim. Tudo aquilo que está ali são os meus sentimentos. Eu escrevi para o homem que hoje é meu namorado e me faz feliz, escrevi porque queria que ele soubesse o que eu sentia.

Peço por favor, para os blogs e tumblrs e outros sites que o estejam divulgando, que corrijam o erro. É possível checar as datas e ver que, de longe, o meu post aqui é mais antigo que qualquer outro que tenham feito em qualquer outro blog com ele. E aos que acreditam em mim, acompanham meu blog, reconhecem o meu tipo de escrita e me conhecem, peço que me ajudem a divulgar este post, se possível.

O texto é o #27.

E os encontrei com a autoria modificada nos seguintes endereços:
lisbela.wordpress.com
imbecilidadealeatoria.tumblr.com
psychodelic.tumblr.com
smncrstn.tumblr.com
lastdaysofromance.tumblr.com
sheslostcontroll.tumblr.com


Obrigada,
Andressa Rodrigues

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#32

Julho 19, 2009

valsinha

um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
e não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
e nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
e então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
e cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
e ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
e foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
e foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
que o mundo compreendeu
e o dia amanheceu
em paz

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#31

Junho 28, 2009

carta aos meus.

amigos, família,

gostaria de poder escrever mais. acontece que ando ocupada como nunca antes. gostaria de ter escrito com antecedência para contar-lhes o que vem acontecendo na minha vida. como tudo de repente pareceu encher de cor e vida e sons.
há três meses ele entrou. há três meses ele começou a tomar conta de tudo e trazer consigo uma paz que até então eu desconhecia. ontem, por exemplo, foi um dos dias mais saborosos, foi o dia que salvou essa semana que fora um tédio estressante e chato. ontem sentamos no sofá logo pela manhã e tivemos uma overdose de star wars. edredon, colo e star wars. gosto da forma como ele traz seu mundo aqui. eu nunca tinha assistido star wars. ele devia saber tudo decor. temos gostos tão diferentes. se eu não tivesse visto com ele, se eu não o conhecesse, provavelmente não aguentaria nem o primeiro episódio. mas assistir pensando que ele gosta tanto é diferente. eu olho com atenção cada detalhe, pensando por que ele gosta tanto, tentando desvendar cada mistério da história – e dele. como se, assistindo o filme que ele tanto gosta, eu pudesse descobrí-lo.
ele é um chato. fica chateado achando que eu não gosto das coisas ou que tudo ali é um tédio. talvez eu realmente dê a entender isso. mas é que temos formas diferentes de aproveitar um filme. ele, quando se empolga, fala, me explica, quer saber se eu entendi. mas vocês sabem que eu, quando me empolgo, entro em estado de instrospecção. eu tento curtir ao máximo, sozinha, em silêncio, isso que me faz bem. não gosto quando ele fica chateado achando que eu não gostei e que aquilo que o deixa excitado não me deixa também. eu não sei como demonstrar que já gosto antes mesmo de ver, só porque é algo que vem dele. não sei. só sei sentir.
depois fomos para a cozinha e fizemos mousse de limão. ele quer sempre mandar em tudo, fazer as coisas sempre do seu próprio jeito. “vai espremendo o limão“. não! é do meu jeito, porque o meu jeito é o melhor! e eu grito “você espreme e eu vou colocando o creme e o leite condensado no liquidificador!“. e daí ele me imita dizendo “você-não-me-maaanda!” como uma criança. e eu sorrio porque ele é a melhor coisa que aconteceu na minha vida em muito tempo.
mais a noite experimentamos o doce e tinha ficado uma delícia. mas queria que ele estivesse aqui hoje de manhã pra ter comido comigo de novo. hoje está bem melhor. parece o mousse daquelas tortas de confeitaria.

nós somos realmente bons juntos.

depois fizemos pipoca. e como eu me irrito com ele comendo de boca aberta. realmente me irrito. não consigo prestar atenção no filme com aquele barulho de pipoca quebrando nos dentes. mas eu não falo nada. porque ele está ali e não dá pra ficar irritada por muito tempo mesmo. mais tarde comemos pão de queijo e nos jogamos no sofá reclamando de estarmos cheios, estourando, explodindo. rindo. depois jogamos banco imobiliário, e ele sempre com aquele ar superior. ele sempre ganhando, sempre mais esperto. sempre lindo.
no fim da noite, ele disse “queria que você sentisse como me faz bem. queria que eu te fizesse tão bem quanto você me faz“. me deu vontade de bater nele. como pode ser tão perfeito, tão inteligente, tão esperto jogando banco imobiliário. mas não conseguir enxergar o que é que ele causa em mim? como pode não perceber que há uma explosão aqui dentro, uma coisa que vai além de felicidiade, uma vontade de viver e lutar pelas coisas e estar sempre junto e gritar e pular com as pantufas que ele me deu.
eu gosto de acordá-lo pela manhã, pulando sobre ele e fazendo escândalo. gosto de pensar que fui a primeira que ele viu ao acordar, a primeira que lhe disse “bom dia!” e a primeira sortuda que viu seu primeiro sorriso do dia. gosto quando ele fecha os olhos de novo, puxa o edredon e diz “vem aqui embaixo“. gosto que ele use minhas pantufas. gosto do fato de ele ter sua própria xícara aqui em casa. gosto de pensar que aos poucos ele está tomando conta do meu mundo. vindo cada vez mais. entrando cada vez mais fundo. me transformando, me reconstruindo.
me desculpem pela falta, pela demora ao enviar notícias. é que estou tão bem, tão feliz e completa, que não me resta muito tempo para as outras coisas.

até outro dia – quando meu amor permitir,
quando ele não roubar as maravilhosas 24 horas do meu dia me fazendo sorrir.

com carinho,
a.r.

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#30

Maio 24, 2009

encostada no vidro do ônibus, eu olhava para fora distraída. os fones de ouvido traziam de leve a música que começara a tocar. de súbito, senti o corpo indo para frente com o freiada repentina, dessas que os motoristas costumam dar como se tivessem acabado de acordar, pois pensavam no mundo lá fora, na realidade distante do ponto final dos passageiros. então despertei do sonho confuso que estava tendo de olhos abertos, fixos no horizonte. e, olhando enfim para aquele mundo tão perto e real que era o interior do veículo, vi um casal de idosos se levantando lentamente.

a música continuava ao fundo. o homem desceu primeiro – não sem antes ter alguma dificuldade – e, em seguida, estendeu a mão para ajudar a senhora. ela sorriu e segurou as mãos calejadas que a olhavam e diziam “vem comigo!”. o ônibus fechou as portas e seguiu seu longo e interminável caminho. por mais que ele quisesse me levar para longe, lá, bem distante, eu ainda conseguia ver o casal. eu era capaz de enxergá-los, andando de braços dados, devagar, como se não houvesse amanhã. como se o mundo fosse apenas os dois e o passado que tiveram um dia – e que ninguém sabe nem nunca saberá a não ser os dois.

só então fui prestar atenção na música que tocava. os fones, tão colados ao meu ouvido, traziam uma canção que, naquele exato momento, encaixou-se como trilha sonora da imagem que eu observava. era como um quadro. um quadro com som. prestando atenção nas palavras que me eram cantadas, lembrei que nunca gostara daquela canção. já a conhecia há muito, mas nunca me agradara. o estranho e incompreensível foi que, naquele momento, a melodia parecia simplesmente a mais perfeita e harmoniosa e intransferível das melodias. meu olhos ficaram úmidos. e, pela primeira vez em meses, não foi de tristeza.

a vida tão simples é boa“, ela dizia. e eu, do outro lado, olhava o casal e pensava em nós dois. será que um dia seríamos eles? será que um dia eles foram como nós? mais felizes? sem menos complicações? será que eles tiveram problemas, ultrapassaram tudo juntos, juraram amor eterno? será que nós juraríamos amor eterno? e cumpriríamos? será que seríamos fortes o bastante para suportarmos os defeitos um do outro até o fim? será que você iria segurar minha mão quando eu precisasse? mesmo nos meus setenta, oitenta anos? até quando você diria, todos os dias, que eu era linda? será que ele também falava isso para ela? será.

um vendedor de flores ensinar seus filhos a escolher seus amores“, ele cantava. eu, que nunca gostei daquela música, ouvia tão emocionada e acreditando nas palavras, que se tornara uma situação inconcebível . me achei tola. não sei o que aconteceu. acho que foi medo. pode parecer piegas, ou até mesmo infantilidade, mas eu tentei nos imaginar naqueles corpos. infinitamente eu tentei, até quando não pude mais enxergá-los e tive vontade de levantar e correr até o fim do corredor do ônibus e gritar, batendo no vidro, desesperadamente pedindo para que o motorista parasse e me deixasse sonhar.

não fiz isso. quando os perdi de vista, fechei os olhos. e chorei e sorri e guardei na mente aquela imagem que consegui formar, finalmente, de olhos fechados: você segurava minha mão. e quando eu descia, você dizia “você tá linda hoje, sabia?”. e eu, como sempre, ficava sem resposta e ria um riso bobo e sem graça. você sorria em resposta, me abraçava talvez já não com tanta força, devido aos anos, mas me abraçava do mesmo jeitinho, na mesma posição de braços. em seguida, estendia novamente as mãos, me puxando para que andássemos, e dizia zombando de mim “há, lembra da época da faculdade, quando você achava que eu não queria andar de mãos dadas com você lá dentro?…”. e íamos embora, cheios de uma úmida intimidade, enquanto alguém, muito jovem, num ônibus distante, nos olhava e sonhava…

andressa rodrigues

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#29

Maio 11, 2009

Sou um dos fracos? Fraca que foi tomada por ritmo incessante e doido? Se eu fosse sólida e forte nem ao menos teria ouvido o ritmo? Não encontro resposta: sou. É isto apenas o que me vem da vida. Mas sou o quê? A resposta é apenas: sou o quê. Embora às vezes grite: não quero mais ser eu! Mas eu me grudo a mim e inextricavelmente forma-se uma tessitura de vida.

Clarice Lispector em Água Viva

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#28

Maio 7, 2009

e eu fiquei durante muito tempo tentando manter na memória uma coisa dolorida e feia, que me mastigava e destruia e me engolia por completa. fiquei por muito tempo brincando de querer-e-não-poder-ter. enquanto estávamos juntos, eu guardava na caixinha aqui dentro da minha cabeça todos os lugares e palavras e observações que você fazia. porque eu sabia que um dia tudo terminaria e, mesmo que você mudasse de cidade, de estado, de país – que você morresse – aqui dentro tudo estaria guardado para quando eu quisesse reviver o nosso amor. que nem de amor pode ser chamado porque existiu entre quebra de lei e ameaças e amantes e você querendo o maldito isofilme no carro.

é incrível a forma como eu memorizei tudo. tudinho. aqui dentro. bem vivo. até hoje. lugares, palavras, músicas, filmes, imagens, situações, posições, sorrisos. a cara que você fazia quando ficava bravo, quando eu chorava, quando você gozava. eu recordo tudo. a diferença é que ontem eu lembrava e morria. hoje eu lembro. e só. a diferença é que ontem eu te via e morria. hoje eu te vejo. e lembro. mas só.

às vezes eu penso se poderia ter sido diferente. e se eu tivesse fingido que não ouvi você falar o nome dela, e se eu tivesse insistido menos, e se eu tivesse feito menos drama, e se. mas, afinal, tudo isso é indiferente. tudo que acontece, tudo que se fala, tudo que se sente é tão efêmero, inconstante e imprevisível. tão fora de nossas mãos. pensar em como poderia ter sido não muda o passado. é torturante.

durante muito tempo eu tentei te esquecer. sabe, “buscar em outros braços seus abraços”? mas não apenas isso, eu também saía e bebia e falava de você quando ficava fora de mim. e os meus amigos, que me queriam bem, me mandavam esquecer, me mandavam largar mão de ser trouxa. eu me estraguei por dentro, eu fumei como louca, eu não usava camisinha, eu perdi o pouco amor próprio que me restava. levei tapas na cara. te telefonei. você não atendeu. eu feri pessoas. descontei minha raiva e meu desgosto em quem me amava de verdade.

fiquei durante muito tempo tentando manter na memória uma coisa dolorida e feia. neste últimos dias eu tenho enfim talvez me sentido livre. não sei o porquê de tanta obsessão por você nos últimos meses. não entendo, é sério. você nem é tão bonito. nem tão legal. nem tão carinhoso. nem tão fiél. aliás, nada fiél. na verdade você me aborrecia muito. na verdade verdadeira eu sempre fui muito melhor que você. fica bem, viu. só desejo o melhor pra você, seu carro e sua garota.

andressa rodrigues

A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoçõesCaio Fernando Abreu

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#27

Abril 5, 2009

eu vou te dizer tudo o que você queria que eu dissesse, mas não dessa maneira normal como fariam os 6,8 bilhões de habitantes do planeta. não, porque eu não sou nem um pouco igual a eles, porque eles não são nem um pouco de mim. mas também por uma fraqueza anormal e dilacerante que é mais um medo de não ser correspondida ou entendida ou ser ridícula como fui 99,9% das vezes. eu vou te dizer como você mexe comigo sem saber – ou sabe, o que se torna ainda um medo maior porque saber é manipular. você sabe ou não sabe como você me faz tremer de medo e te procurar por todo lado, porque é sim um medo estranho e diferente que alivia outro – o medo de te ter vindo cada vez mais perto do coração, o medo de que você se torne cada vez mais uma necessidade, um sem limite aqui dentro e que vá tomando conta arrastando destruindo levando o que resta. e que quando você me abraça eu sinto que poderia parar o mundo ali porque ele cura tudo. é um abraço que encaixa certinho, meu queixo sobre seu ombro, meus braços que te agarram, os teus que me abraçam nas curvas e meu peito que encosta no seu e se acalma. baby e quando você me elogia você sabe que eu fico feliz mas não sabe que na maioria das vezes eu penso o quanto isso é recíproco, o quanto todos os elogios cabem em você também. e me odeio porque minha boca só se abre pra sorrir mas não serve pra te dizer o quanto são importante todos os momentos, embora sejam poucos, que já estivemos juntos. e que você não é nenhum galã de cinema, se acha mais inteligente que todo mundo, é chato, me obriga a fazer coisas que eu não quero e reclama de tudo, mas que mesmo assim eu gosto do jeito que você sorri e fecha os olhos quando eu coloco as mãos nos seus cabelos, e até a forma como você tenta ser cavalheiro e me paga um churros ou suco de fruta de verdade. o negócio se complica aqui porque normalmente eu não aturaria defeitos, normalmente eu começo a gostar e depois de um tempo eu vejo os defeitos e começo a odiar. em você eu vi os defeitos e depois as coisas boas e depois ficou tudo tão harmonioso e fácil de conviver que começou a dar medo.

eu odeio muito a forma como você parece ser indiferente às coisas que acontecem comigo ao mesmo tempo que diz que se importa com tudo. mas quer saber eu também nem me importo porque começo a nem pensar mais no que pode acontecer comigo e sim no que pode estar havendo com você. porque eu sei que existem pessoas meio que atrapalhando e que você também pode estar sentindo um pouco de medo. mas porque diabos eu me preocupo com isso, já que eu falei pra gente ir levando de uma maneira leve? é isso que é inexplicável, baby, que ocorre sem que eu pense antes ou me auto censure para não falar ou agir. é como o ciúmes que ocorre sem que a gente queira, e que vem ocorrendo com freqüência, sabe. é que parece que com você o negócio já tomou proporções tão grandes – e boas – que não tem como te sentir sem levar certas coisas a sério.

mas vamos supor que isso nem seja importante, que apenas eu esteja levando a sério sem querer, que apenas eu perca um pedaço da minha vida pra escrever sobre algo que nem bem começou. vamos supor que eu seja meio louca ou burra ou apaixonada. com todas essas coisas eu não consigo, ainda, dizer nem metade. é que uma parte de mim se segura pra não ser tão escancarada e se guarda. é que uma parte de mim tem medo – olha, outro! – de estar errada. vai que você nem é tudo isso, né. você quer saber a primeira impressão que eu tive de ti? eu lembro da gente e mais um pessoal conversando e você dizendo que o carnaval seria muito legal, que você ia pra uma cidade pequena e que uma guria te esperava lá. eu pensei “mais um no meio dos 6,8 bilhões”. mas daí você veio como quem não queria nada, voltou do carnaval me olhando diferente – eu sei que no início você me achava uma chata, uma metida à culta mas eu nem sou. eu sou bem burra. enfim, você veio diferente, a gente começou a se olhar diferente, a falar diferente. daí nós saímos e conversamos e você nem era mais um no meio dos bilhões. você era mais um no meio dos raros que eu presto atenção.
mas vai que eu tô errada de novo, né? já errei tantas vezes.

eu gosto da tua boca.

Andressa Rodrigues

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#26

Março 30, 2009

Foi numa manhã ensolarada como essa que percebi como as cores haviam mudado. Ainda de olhos fechados, senti a luz e o calor atravessarem a cortina branca e queimarem minha retina. Eu suava embaixo dos lençóis. Virei para o outro lado e abri os olhos. Então, o sol ultrapassou minhas costas, pele, ossos, órgãos, e alcançou meu coração – um músculo viscoso, batendo com arritmia, vermelho, sólido. Queimando. Direcionei os dedos ao outro lado da cama. Vazio. Frio. Ainda arrumado. Um buraco aberto no infinito de uma história jamais terminada. Uma sombra no meio do nada que foram todas as noites que eu vivera até então – contigo.
Levantei, buscando não olhar para a imensidão do quarto. Lugar este que fora tão pequeno outrora, quando não cabíamos nele de tanta emoção explosiva, tanta pele, suor, tato. Lugar este que agora parecia não ter fim. Paredes infinitas, cobertas com fotos, sorrisos, mãos dadas, passados. Objetos espalhados pela cama agora enorme, de onde um dia caímos no meio de tanta exaltação. Éramos tanto. A cama era tão pouca. Éramos tanto. O mundo para nós era tão pouco. E o que restou foi um quarto de 3 por 4 metros. Agora somos tão pouco ou quase nada.


Andressa Rodrigues

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#25

Março 14, 2009

Arquivos – Transição

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ESVAECE-ME
Lembro-me bem das horas inteiras
Em que passei sem que te visse
E minh’alma, sobriamente triste,
Embebedou-se do vinho amargo das videiras

Não há quem diga minha idade
Se tão fraca e feia e morta
Com a solidão áspera de uma porta
Fico ao pensar-te com saudade

Então lembro-me do paraíso
Que tu transformaste minha vida:
Fez-me esquecer da vida dolorida
E tornaste tudo eternamente riso

Impossível não amá-lo assim:
Tão perfeito, tão sincero
Diz-me as palavras que eu espero
E deixa-me sempre num amor sem fim

Assim eu o queria – e agora o tenho -
E de repente, você sorria,
Minha noite fez-se dia
Valendo a pena todo o empenho

E num momento eloqüente
Da tua boca ouvi juras de amor
O silêncio seguinte brotou-se em flor
E calados entendemos que seria eternamente

A.R.
?/2005
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SER HUMANO
Melhor se fosse ‘’ser repugnante ao extremo”, ‘’ser ignorante” e, por fim ‘’ser um desacreditado”.
Não sei mais o que esperar desse ‘’ser humano”. Sempre soube que essas coisas não acabavam. E sinto repugnância à raça humana ao ver que ela consegue diminuir sentimentos tão bonitos. Eu gostaria de não ter descoberto que essas coisas acabam um dia…

A.R.
14/janeiro/2006

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UNTITLED

quem me dera ser
aquilo que sempre sonhei.
quem me dera sonhar
algo mais fácil
do que ser o que sou.
quem me dera ser
apenas um sonho…

ah! quem me dera…

A.R.
9/fevereiro/2006

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TEMPO

certa vez, disse-me um poeta
que dar tempo ao tempo
era como a cada tarde de outono
ver o vento soprar os galhos das árvores
e, embaixo delas, esperar as folhas secas cairem.

mas esse mesmo poeta esqueceu de me dizer
quanto tempo demoraria para o outono chegar…

A.R.
12/fevereiro/2006

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DAS ÁRVORES

Sob os galhos destas árvores antigas
Deixo minhas marcas, meus pesares
Minhas viagens por todos os mares
Minha vida tristemente esquecida

As sombras afagam meus desalentos
O farfalhar das folhas choram meu desdém
Meu passado aqui, aquém
Já não faz parte dos meus tormentos

Ah, Homem, olha bem…
Vês este tronco todo enrugado?
É meu silêncio que fala calado
As reentrâncias abrindo mais além…

A.R.
11/março/2006

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PROCURA-SE

Procura-se uma flor eterna, que nunca morra. Procura-se uma alma boa e cálida. Procura-se força. Mas não aquela força dos homens: procura-se a força da alma, a força para enfrentar problemas e medos. Procura-se um coração. Um coração grande e puro. Procura-se sorrisos sinceros, amores eternos. Procura-se a voz dos anjos, os crepúsculos inesquecíveis, as fotos de infância. Procura-se urgentemente uma estrela cadente. Procura-se asas. Asas como as quais sonhavamos antes, quando havia esperança. E, claro, ainda procura-se a esperança. Procura-se liberdade. A liberdade da alma, da angústia, da dor, do sofrimento. Procura-se um orvalho a cada manhã. Procura-se uma sombra de uma árvore para descansarmos ao fim do dia. Procura-se respostas. Procura-se algumas coisas que nunca existiram. Procura-se também o que existiu, mas há tempos perdeu-se.  Procura-se, por fim, o significado da palavra ”felicidade”.

A.R.
05/maio/2006

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ÚLTIMO

Há uma tempestade acinzentada lá fora.
Pela vidraça escorrem lúgubres memórias do tempo que tive.
A lufada das horas carrega-me, insossa, por caminhos ritmados.
Os meus pés, descalços, sentem a tortura dos papéis amarrotados.
Chove. Diria-me qualquer poeta amigo que é este
O momento de desaguar-me em metáforas previsíveis
E regozijar-me em metonímias infindas.
Sinto muito: esta noite não voltarei a escrever ainda.
Permaneço no incauto do meu subterfúgio
Com Pessoa, Drummond, Quintana…
Estarreço! Toco-me… sim, sou eu ainda…
Sou eu: a essência do poeta que não fui
E só.
Embora relegada, vazia, manchada com o arco-íris negro
Do tinteiro caído sobre a mesa,
Sou eu… sou minhas memórias… sou a pilha de papel amarelecida na estante.
E só.

A.R.
2007
Mundo Diverso Mundo de Verso
,  1ª edição, pg 236.
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TRANSIÇÃO

(In)felizmente não foi o último.

A.R.
14/março/2009

h1

#24

Fevereiro 25, 2009

lembra daquela primeira vez em que você olhou nos meus olhos e eu não conseguia parar de rir?
lembra da maneira como você segurou meu braço e perguntou meu nome?
lembra de quando sentamos e você falou das minhas mãos?
lembra daquele arco-íris que você desenhou?
lembra quando você disse “um beijo pelos teus pensamentos”?
lembra se eu contei meus pensamentos?
lembra como eu dançava na boate enquanto você se escondia atrás da pilastra e me vigiava?
lembra do dia em que eu me maquiava e você chegou por trás, me abraçou, e ficamos os dois ali, a olhar no espelho aquele estranho casal?
lembra como você me colocou no colo quando nos beijamos pela primeira vez?
lembra das músicas que eu gravei pra você?
lembra do primeiro tapa?
lembra como chegávamos bêbados toda noite?
lembra a cara do seu amigo quando contamos a diferença de idade?
lembra quando acordamos no meio da noite com o cd travando e os dois fingiram estar dormindo pra não ter que levantar e desligar o rádio?
lembra como rimos disso na manhã seguinte?
lembra quando nos beijamos no seu lugar de trabalho?
lembra como eu te chamei de louco por fazer aquilo sabendo que seu chefe estava por perto?
lembra quando fomos no cinema e deixamos o pacote de pipoca inteiro?
lembra qual filme assistimos?
lembra como você gostava que eu usasse salto alto?
lembra o lado da cama que eu dormia?
lembra do caminho longo que fazíamos até a minha casa?
lembra do medo que eu sentia de que alguém me visse sair do seu carro?
lembra quando me viram entrar?
lembra quando eu ouvia “lolita”, do stereophonics?
lembra de quando você me chamou de “meu passarinho” na frente da minha amiga?
lembra quando você pediu pão com queijo e nescau pra mim pelo telefone do hotel?
lembra do meu sorriso?
lembra da carta no parabrisa do carro?
lembra de quando você me chamava de “minha criança”?
lembra do quanto eu gostava de ser sua criança?
lembra a primeira vez que fiquei sem falar com você?
lembra como você sentou do meu lado, disse pra eu olhar no seu rosto, e eu fingi não ouvir?
lembra quando eu decidi enfim conversar e você não entendeu?
lembra que você parou o carro e disse que eu estava inventando uma desculpa pra terminar?
lembra como eu não conseguia parar de chorar?
lembra que depois dessa briga prometemos levar tudo mais tranqüilamente?
lembra como isso era um eufemismo para “não se importar com traições”?
lembra a forma como você fingia sentir ciúmes?
lembra que eu te contava sobre os garotos da minha turma só pra te ver interpretar?
lembra quando eu beijava suas costas?
lembra quando você me levou pro curso de inglês à força?
lembra como eu queria ter ficado no carro contigo?
lembra das vezes em que você me deu o chocolate de cima da geladeira antes de irmos embora?
lembra que eu sempre recusava, mas acabava comendo?
lembra da câmera no elevador?
lembra quando fomos no shopping e eu ficava olhando ao redor, com medo de ser reconhecida?
lembra o quanto éramos impossíveis um para o outro?
lembra quando você me contou que tinha falado de mim pra sua família?
lembra como eu fingi acreditar?
lembra quando brigamos e você me contou que tinha visto um filme e, nele, uma personagem igual a mim?
lembra como a história do filme se parecia com a nossa?
lembra quando você me mostrou a música tema da história com o intuito de me convencer que era inocente?
lembra como eu fui inocente?
lembra do meu cheiro?
lembra dos meus olhos?
lembra como você tentava me fazer falar no seu ouvido?
lembra como você gostava da expressão do meu rosto?
lembra dos bilhetes que eu te mandava enquanto você trabalhava?
lembra de nós, afinal?
lembra?

eu lembro tanto, tanto. que às vezes arde.

h1

#23

Fevereiro 19, 2009

“Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viveras superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualqueratraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um diadestes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ……… ………… …………. ………… ………. ……….. …………. ………… ………… ………… ……… ……….. ………… ………… sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

Para uma avenca partindo – Caio Fernando Abreu

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#22

Fevereiro 4, 2009

Verbo Amodiar

Presente do Indicativo
eu amodeio
tu amodeias?
ele
nós amodiamos
vós amodiais
eles amodeiam

Imperfeito do Indicativo
eu amodiava
tu amodiavas?
ele
nós… nós?
vós amodiáveis
eles amodiavam

Perfeito do Indicativo
eu amodiei
tu estiveste ausente
ele amodiou
nós amodiamos
vós… não vi, estive ocupada
eles amodiaram

Mais-que-perfeito do Indicativo
eu amodiara
tu
ele amodiara
nós amodiáramos
vós amodiáreis
eles amodiaram

Futuro do Pretérito do Indicativo
eu não amodiaria se
tu amodiarias
ele amodiaria
nós não amodiaríamos se
vós amodiaríeis
eles amodiariam

Futuro do Presente do Indicativo
eu
tu
ele
nós
vós
eles


Andressa Rodrigues